sábado, 4 de junho de 2016

Azores Trail Run



Antes da prova


Começando pelo início, algures lá para o final do ano passado tivemos conhecimento da prova. Pesquisámos e encontramos este video da segunda edição e desde logo ficámos hipnotizados. Eu e Ela fizemos então um jantar com o Filipe e a Rita e ficou decidido que iria-mos tirar férias juntos para conhecer os Açores e fazer o Faial de Costa a Costa 48km.


Os treinos começaram a ser direcionados para este objectivo e tudo correu bem até às 24 Horas Strong Run. Esta deveria ser uma prova teste, com o objetivo de terminar a fase de carga do plano de treino, depois era só afinar alguns pormenores e estava feito o treino. Mas o que realmente aconteceu é que saí lesionado desta prova. O acumular de muitos treinos e kms (foram mais de 300kms em março e 250kms nas primeiras duas semanas de abril incluido a prova), o uso e abuso de calçado inapropriado (sou pronador e pronador severo à esquerda) resultou num síndrome da banda iliotibial, mais conhecido por joelho de correrdor.
Parei vários dias e iniciei tratamento no osteopata mesmo até à ida para os Açores. Resultado, nas seis semanas que antecederam o Azores Trail Run fiz pouco mais de 15 treinos, o mais longo com apenas 12kms. E só nas ultimas 2 semanas consegui correr sem dores. Tive a ultima seção de tratamento no dia antes da partida para os Açores ou seja 4 dias antes da prova.

Objetivos


O objetivo inicial para a prova era desfrutar ao máximo das paisagens da ilha e tentar fazer um top 20 do escalão, com um tempo entre as 05:30h e as 6 horas de prova. Isto tendo em conta os tempos das edições anteriores. Para mim, participar em provas é isso mesmo, é competir com outras pessoas, nas mesmas condições. Ir a provas só para chegar ao fim não faz sentido na minha perspetiva. Por isso é que há provas com classificações e prémios por escalões. Caso contrário corria apenas com o relógio a cronometrar os meus tempos e a superar-me a mim próprio. Mas quando me lesionei mudei radicalmente os objetivos, e passeia a querer apenas chegar ao fim, conseguir fazer a prova toda sem que o joelho me deita-se abaixo. E ía preparado para tentar fazer a prova sem ultrapassar o tempo máximo de 10 horas. Comprei então uns bastões de caminhada para aliviar nas descidas e ajudar nas subidas.


A prova


As previsões meteorológicas para o dia da prova não eram assim tão más e só davam previsão de chuva para o final do dia.

Antes do início da prova, marcada para as 09:30 horas estava tudo a correr bem, uma boa temperatura, mais para o fresco mas sem fazer frio. Não estava a chover, mas o céu estava bastante nublado.

Percurso e altimetria.
O percurso de inicio era sempre a subir até meio, altura em que circundávamos a caldeira e depois predominantemente a descer até ao vulcão dos Capelinhos onde estava situada a meta. O "ex libris" da prova é a passagem pela caldeira central da ilha que é o maior e mais importante vulcão do Faial. Supostamente proporciona vistas magníficas e inesquecíveis. Mas, infelizmente para nós, o local iria estar completamente coberto por um denso nevoeiro.

Partida na hora marcada, com grande festa, muito público a assistir, muitos fotógrafos com grandes máquinas fotográficas, GoPro's, drones, tudo o que temos direito numa prova...
Logo de início fui sempre junto ao Filipe. A Rita deixo de a ver logo desde o início e a Tânia a partir do segundo km.

Aqui ainda ía tudo bem. Com a ilha do Pico em pano de fundo.

Assim que começo a subir a primeira parede utilizo os bastões de caminhada e consigo até um bom andamento a subir sem grande esforço.
A partir do km 8 começa a chover, não é muito mas vai molhando a roupa.
No primeiro abastecimento vestimos os corta-vento que sempre repelem alguma água, no entanto por pouco tempo. 
Após a zona em ziguezague, na ascensão à caldeira, começa a chover com mais intensidade, e à medida que vamos subindo cada vez mais o tempo piora muito e já faz frio.
Quando chegámos ao 2º abastecimento já começo a acusar a falta de treinos, sinto-me cansado e com as pernas pesadas. Fazemos então mais uma paragem demorada para colocar os telemóveis dentro do saco da manta térmica porque na mochila já estavam a ficar molhados.
Quando saímos do abastecimento chove bastante e faz frio e vento. Passamos nesta altura pelos atletas que vão fazer o Trail dos 10 vulcões 21kms.
Assim que subimos para a caldeira começa a fazer imenso vento e não consigo correr em linha reta, pois o vento empurranos de um lado para outro. A chuva a bater na cara parecem agulhas a picar, tal a força do vento. Em menos de 1 km na caldeira perco o Filipe de vista. Começo a ficar com imenso frio, mas guardo sempre a esperança de ser passageiro. Como estamos a 1000 mts acima do nível do mar imagino que quando começar a descer o tempo ficará melhor, e de fato, em algumas zonas o vento acalma, mas depois volta à carga ainda com mais força...O pior é que a chuva não pára e cada fez está mais frio e nevoeiro.

Esta zona da caldeira é caracterizada por ter um tipo de vegetação a que chamam "tufos" (acho que é assim que se chama) que são pequenas elevações de erva e terra mole que ao pisar tem uma consistência "fofinha", mas torna muito difícil a corrida. Temos de tentar encontrar um sítio mais duro para colocar os pés. Saltitamos de um lado para o outro tentando evitar as poças de água e as "minas" de vaca, quase do tamanho dos tufos... tarefa difícil mas não impossível pelo menos até certo ponto. Torna-se até divertido mas de muito difícil progressão.
Mas a chuva não dá tréguas e é quase impossível manter os pés secos. A água acumulada começa a formar pequenos ribeiros de lama com minas de vaca à mistura, sinto que estou literalmente a correr na merda.
A dada altura sigo atrás de uma atleta que do nada fica presa com o pé na lama. Eu, no momento achei aquilo o máximo, tipo uau que cena vou já ajudar a jovem... Mas assim que agarro na perna dela para puxar fico com a minha perna esquerda presa até ao joelho em lama. A lama faz vacúo e quase me arranca a sapatilha do pé quando faço força para tirar a perna, e ao mesmo tempo...CÃIBRA! Começo a ter cãibras cada fez que fico atolado.
A partir daqui é sempre a piorar. Onde era caminho, agora é só lama, os tufos começam a partir quando os pisamos e é fácil cair na lama. Desisto de tentar correr e apenas caminho com a ajuda dos bastões, para não cair. Quando encontro uma zona mais fácil de correr já não consigo porque estou cansado de tanto saltar, escorregar e cair na lama.
A certa altura sou alcançado por Ela. Não estava à espera que me alcança-se, no entanto era algo inevitável pois eu estava a progredir muito devagar. Diz-me que ainda mal parou nos abastecimentos e que está com fome. Pede-me que lhe dê algumas barras energéticas e géis que leva na bolsa de trás da mochila. Pergunta pelo Filipe e segue para a frente a dizer que tem de ir apanhar umas atletas que vão mais à frente... em menos de 1 minuto fico outra vez sozinho, ela vai a correr, eu a andar, e o nevoeiro não deixa ver mais que 200 metros à frente.

O Terreno é só lama e não consigo evitá-la. Facilmente fico atolado até aos joelhos. Por vezes tenho de retirar a perna com as mãos para não ficar sem sapatilhas. E pior, já não distingo a lama das "minas" de vaca...
 - Mas como é que o raio das vacas vêm parar aqui em cima? pergunto a mim próprio!

A determinada altura começam a assobiar e chamar por mim e mais uns atletas que seguiam à minha frente. Olho para trás e vejo que nos tínhamos enganado no percurso. A olhar sempre para o chão e com nevoeiro não nos apercebemos que era para virar numa encruzilhada.
Em certas zonas mais técnicas que tinham algumas subidas ou descidas por pequenos degraus de terra, agora é apenas uma cascata de lama e água, é quase impossível transpor estas partes sozinho e começam a formar-se pequenos grupos para se ajudam nestas zonas.
Começo a tomar consciência do estado em que estou e do perigo que corro. Estamos completamente isolados, não se avistam estradas de acesso ou qualquer membro da organização. Se alguém tem o azar de ficar lesionado nesta zona vai sofrer e muito.
O frio e a chuva é demasiado, gasto mais energia a tremer de frio do que a andar. Aqui e ali há atletas no chão, com cãibras e dores musculares, rodeados de outros atletas a ajudar. Já não consigo parar para ajudar, pois corro o risco de ser eu o próximo a ficar por terra.

Já sabia que ía ser uma prova dura, com grau de dificuldade elevado, mas isto estava a ultrapassar tudo o que tinha imaginado. Uma coisa é ter uma zona de prova mais técnica e difícil, outra é estar à mais de 10 kms atolado em lama, com chuva e frio. Já não tiro qualquer prazer da prova e só quero que acabe depressa. Alguns atletas já caminham enrolados na manta térmica. Quando finalmente chego ao 3º abastecimento estou esgotado, tenho 04:30h de prova e demorei 02:15h para fazer os 10 km que separavam os dois abastecimentos.
Não consigo quase comer por causa do frio, não paro de tremer. Pergunto então a um membro da organização como é o terreno e como está o tempo a partir daqui:
 - É sempre a descer agora, mas o piso está igual, com muita lama e está também a chover lá pra baixo.
Os meus joelhos não vão aguentar a descida. Dou voltas a tentar decidir o que fazer. Não consigo aquecer nada, e acabo por tomar a decisão que na altura me pareceu mais certa. Desligo o relógio com 04:37 horas de prova, e 27 kms percorridos. Abandono a prova porque sinto que já não estou em condições físicas de percorrer mais 20 kms.

Naquele espaço de tempo que estou no abastecimento pelo menos mais 10 atletas abandonaram pelas mesmas razões. No total dos 212 atletas que partiram para a distancia de 48 kms 52 não a terminaram. Nos 70 kms dos 70 atletas apenas 55 chegaram ao fim.

Enrolo-me na manta térmica e colocam-me dentro da ambulância com mais 6 atletas. Dizem-me que estão à espera que venha alguém para nos levar para baixo. Espero quase 1 hora até vir alguém. Um jipe com um rapaz e uma rapariga da organização, que apenas pode transportar 3 atletas. Consigo então um lugar no jipe e sigo com mais 2 atletas para a Horta.
Mas ao fim de 5 minutos a descer, vem alguém a correr em direcção ao jipe e diz que há um atleta preso na lama com hipotermia e que já não consegue andar, tem de ser evacuado rapidamente. Temos então de nos apertar ao máximo dentro do jipe para conseguir entrar mais uma pessoa.
Somos transportados para o hospital da Horta mas recuso-me a fazer ficha, assumo a responsabilidade e abandono o hospital. 
Corro até à casa onde estávamos alojados para tomar um banho e mudar de roupa. Pelo caminho mando sms à Rita ao Filipe e à Tânia a dizer o que se tinha passado mas que estava tudo bem. Apenas a Rita responde a dizer que também tinha abandonado no 1º abastecimento, mas que o Filipe a Tânia continuam em prova.
Tomo banho a correr e sigo de carro até à meta, na outra ponta da ilha a tempo de ver a Tânia e o Filipe chegarem juntos!


O Filipe e a Tânia de mãos dadas a transpor a meta.

Fica aqui o video que consegui fazer durante a prova.


Agora, à distância de quase uma semana é fácil pensar que poderia ter feito melhor, que podia ter tentado arriscar os últimos 20kms. Mas a verdade é que não estava preparado. A falta de treinos não me permitia ir mais longe, as dores no joelho ainda que fracas condicionaram-me psicologicamente e claro afetou a minha maneira de correr, mais resguardado, mais lento e conseguentemente mais tempo exposto à chuva e ao frio sem maneira de aquecer o corpo.
Fica a vontade de lá voltar para fazer a prova de novo e pagar os 20 kms que fiquei a dever. Por isso fica a promessa que se conseguir lá voltar será para fazer os 70kms do Ultra Ilha Azul.

Até já e boas corridas!

2 comentários:

  1. Foi dura... muito dura a prova, também pensei em abandonar exactamente no mesmo sitio, obriguei-me a mim mesmo a seguir, felizmente não estava sozinho, se estivesse ficava por ali.
    Demorei 9h33 a chegar ao fim. Cheguei.

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  2. Boas, vi o seu vídeo e agora li a sua crónica e ambos os registos refletem melhor do que qualquer outro que tenha visto as dificuldades por que passámos(fiz a prova dos 70K). O seu vídeo, o qual partilhei, é de tal maneira realista que enquanto o via, dei por mim a torcer por si. :-) Espero que volte para o ano e se o tempo não nos surpreender outra vez, possa desfrutar não só dos trilhos que temos, como também das paisagens que são de cortar a respiração. E já agora se voltar posso dar-lhe umas dicas para ultrapassar melhor a zona dos "tufos", que por aqui chamamos a brincar "parte canelas" e não atolar os pés na lama daquela maneira. ;-) Abraço e boas corridas José Junqueira

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