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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

UTRP




Começo este novo post por relembrar um treino que eu e ela fizemos à mais ou menos 3 anos, quando ainda ninguém falava da Rocha da Pena como percurso de trail, aqui. Pois é, naquela altura nem nós sabíamos bem o que era o trail, no entanto conhecíamos já alguns dos percursos ali existente e sabíamos que podíamos desfrutar de paisagens únicas.

No ano a seguir, 2014, realizava-se a primeira edição do UTRP. Infelizmente por razões profissionais não pudemos estar presentes. No ano passado ambos participamos no percurso de 25kms.
Este ano como não tinha conseguido completar o Azores Trail Run, arrisquei e apostei tudo no percurso de 50 kms. A Tânia como tem andado afastada dos treinos apenas decidiu participar porque tinha ganho a inscrição, e então decide ir apenas para acompanhar a Rita nos 25kms.


A Organização da prova gaba-se de ser o trail mais quente do ano e parece que na primeira edição estava realmente muito calor, mas o ano passado a verdade é que nem parecia um dia de verão. Resultado...? Este ano vingaram-se e parece que requisitaram o sol por um dia para nos ferver os miolos! Foi simplesmente o dia mais quente do ano, noticiavam os telejornais no dia a seguir.


De madrugada

Cinco para as cinco da manhã e o Filipe acorda-me 5 minutos antes dos despertadores começarem a tocar. A sensação que tenho é que ele me acorda imediatamente depois de me deixar dormir. Para quem nunca dormiu num pavilhão cheio de gente nervosa para fazer uma prova, recomendo: Dose extra de paciência, uns bons tampões para os ouvidos e um tapa olhos, e na hora de usar a sanita... sorte, muita sorte para que quem tenha utilizado antes de nós ainda não sofra de Alzheimer e se lembre de puxar o autoclismo, o que nos dias que correm é muito difícil... 
Mas então, tinha acabado de adormecer e acabado de acordar tudo ao mesmo tempo. A partida para a prova dos 50kms era às 7 horas. Era preciso tomar um bom pequeno almoço o quanto antes para dar tempo para fazer a digestão. 

A Partida 

10/15 minutos antes da partida houve um pequeno briefing para dar algumas explicações sobre o percurso e as marcações e para realizarem a verificação do material obrigatório. Dentro da minha mochila levei, 2 litros de água no deposito principal + uma garrafa de água de 33cl que iria igualmente servir como copo para beber nos abastecimentos. 2 géis, 3 barritas e 3 pastilhas de electrólitos. Acabei a prova com as barritas todas e uma pastilha.
Como já tinha dito aqui, o objectivo para esta prova era acima de tudo terminá-la e se possível entre as 7 e as 8 horas. 
Depois do que aconteceu nos Açores estava um pouco a medo e receoso do que poderia acontecer. Apesar de tudo o meu medo principal era os joelhos não aguentarem tanto sobe e desce. Quanto ao calor, sentia que estava preparado, tinha treinado nos últimos dois meses mais para enfrentar o calor do que a distância, o que me valeu umas horas no hospital a fazer soro, por desidratação. Sempre que podia treinava na hora de mais calor, simulei várias vezes o dia da prova com treino a começar às 6 da manhã e a terminarem a meio da manhã. Mas os joelhos de vez em quando davam um ar da sua graça e a partir das 2 horas de treino queixavam-se. 
Por isso a estratégia era fazer os primeiros 20 kms mais calmamente e não forçar muito. Em conversa com o Filipe dizíamos sempre que a prova só começava realmente a partir dos 22kms,  que de início era só para aquecer. E realmente assim foi.

Os primeiros quilómetros de prova são muito brandos tendo em conta tudo aquilo que ainda temos de passar. Para quem faz os 25kms é difícil porque é muito rápido e tem um final duro, mas para quem vai fazer os 50 kms serve apenas de aperitivo, abre o apetite e permite desfrutar das paisagens. 
Nesses primeiros quilómetros desfrutámos ao máximo de todo o ambiente que envolvia a prova. Conversámos bastante, as vistas eram soberbas e as pessoas que encontrávamos bastante simpáticas. Realço o gesto de um senhor que na pequena aldeia da Penina tinha a mangueira ligada para quem se quisesse refrescar, e claro nós tomamos um belo banho...

A "prova"



Eu, Logo nos primeiro kms de prova.

A prova para mim começa aos 22 kms, mais ou menos, quando se passa a EN503. É nesta altura que começa um sobe e desce interminável até mais ou menos aos 40 kms.
Começo a usar os bastões nas subidas e consigo manter um bom ritmo sem que me custe muito subir. Ganho algum animo com a sensação e chego à chamada "subida da morte" num pico de entusiasmo. 
A subida da morte tem a particularidade de ter uma cronometragem à parte com um pódio e prémios próprios,  e assim cria-se um ponto de interesse extra dentro da prova. Todos querem ver que tempo fazem a subir a encosta de 400 metros. 
Quando chego à base da encosta, no início da subida, paro e aproveito para descansar um pouco para ganhar fôlego para a subida. Também eu quero fazer o melhor que conseguir na subida da morte. Os bastões são uma ajuda extra e facilitam bastante a ascensão. Consigo fazer 04:41 minutos, o 13º melhor tempo num total de 247 atletas que fizeram a subida.
O que a organização não explica no regulamento é que a subida da morte é apenas, e só mais uma subida, e que durante o percurso dos 50 kms fazemos várias subidas iguais e até piores, em piores condições, mas mais à frente explico...
A partir dos 30 kms começo a sentir cãibras e tenho que reduzir bastante o ritmo, custa-me particularmente a descer e nas partes do percurso em que corremos dentro de uma ribeira é particularmente doloroso e difícil progredir.  
Mas o problema é quando aos 40 kms de prova temos uma encosta que é, ou pelo menos na altura pareceu-me, mil vezes pior que a subida da morte.
Quem publicita a subida da morte e se esquece de referir aos atletas que depois de fazerem 40kms têm de escalar, esgravatar, trepar, subir, eu sei lá... aquela coisa, é no mínimo sádico. No meio do nada, pouco depois de se sair de dentro da ribeira, numa zona com algumas árvores, começo a ver lá em cima alguns atletas de gatas a esgravatar pedras. A coisa deve ter mais ou menos 400mts mas parecem quilómetros. O piso é de pedra solta, vais a subir  e a tentar evitar levar com as pedras que vão resvalando dos de cima. É qualquer coisa saída de um filme de terror. Acontece que quando tinha 50 metros de subida começo a ficar com muitas cãibras e então não consigo subir nem descer. Subir implica levantar a perna acima do joelho para transpor uma zona de pedra, descer era queda  a resvalar na certa. Então opto por me deitar de costas ( que na subida é quase o mesmo que ficar de pé) e massajo as pernas durante 2 ou 3 minutos para conseguir voltar a subir. Depois de subir tudo aquilo a descida a seguir pareceu-me quase tão difícil como a subida... E finalmente os últimos 10 kms faziam-me lembrar a idade do condor, com dor aqui, com dor ali, tudo me doía.

Abastecimentos

Numa prova com estas condições de calor é necessário e quase obrigatório ir parando em todas as "capelinhas", parecia o rali das tascas no meu tempo de estudante. No percurso, tínhamos um total de 6 postos de abastecimento, espaçados por +/-7 kms nos três primeiros e depois de 10 em 10 kms.
Para além disso existiam pontos em que tínhamos bidons cheios de água com uma esponja onde podíamos literalmente tomar banho. Estes bidons, como ouvi um atleta dizer durante o percurso, davam vida nova a um homem. Permitiam baixar a temperatura e davam uma sensação de alivio quando mais precisávamos. Sem estes pontos de água certamente que seria muito mais penoso terminar a prova.
Quanto aos postos de abastecimento propriamente ditos, tinham tudo o que devem ter. Eu pessoalmente optei sempre pela mesma estratégia, duas ou mais garrafas de água ( a que levava comigo e que servia de copo), uma de coca-cola (experimentei o isotónico e tinha um sabor horrível para o meu paladar), melancia com sal, e uns cubos de banana para levar pelo caminho. Acreditem que a melancia com sal era a melhor coisa. 
Mas o que realmente mais apreciei nos postos de abastecimento foi os voluntários da organização, todos eles de alto nível, como já li nas redes sociais. Todos eles nossos conhecidos das provas regionais. E sendo eles também atletas fazem toda a diferença no apoio ao atleta durante a prova.
Durante a corrida reconheço que vou demasiado focado na prova e absorvido nos meus pensamentos e quase não agradeço o apoio dado por todos eles, mas aproveito aqui para destacar alguns deles.
No 3º posto, o apoio do colega de equipa (COP) Valentim, sempre divertido e prestável, obrigado pela força e incentivo.
No final da subida da morte, em que chego completamente sem fôlego, enquanto enfio a  cabeça dentro do bidon de água e fico agarrado aos joelhos de cabeça baixa alguém vai falando comigo, dando-me água,  refrescando-me, pergunta como estou e diz-me para ir com calma porque ainda há muito para correr, só quando recupero o fôlego e me começo a afastar vejo quem era, o meu muito obrigado Pina! 
No 4º Posto de abastecimento, o que fico mais tempo, sento-me no chão por 10 minutos mais ou menos à espera do Filipe que se tinha atrasado um pouco, aproveito para reabastecer o depósito da mochila pela primeira vez, comer e beber bastante enquanto recupero e descanso um pouco. Uma senhora vai falando comigo, e é ela que me ajuda a abastecer o depósito e me dá comida da mesa enquanto fico no chão, foi simplesmente impecável. Infelizmente não sei o seu nome, sei que estava naquele posto à espera de um familiar que também estava a competir, no entanto não deixou de ir dando auxílio aos atletas que chegavam, muito obrigado!
Depois no 5º posto mais dois atletas conhecidos, neste posto eles sabiam exactamente o que eu estava a precisar, foi a segunda vez que enchi o depósito da mochila. Obrigado pelo apoio e por me alertarem que a coisa, era já a seguir.
No último posto de abastecimento já nem conseguia ficar de pé a comer, sentei-me a comer melancia com sal e um dos rapazes que lá estava ia-me despejando um garrafão de água por cima da cabeça e das pernas, muito obrigado! 
Foram todos excepcionais, impecáveis e incansáveis, para mim são eles o rosto do UTRP.

Final

Quando terminei a sensação foi de dever cumprido, todos os sacrifícios que voluntariamente fiz para treinar, para me levantar cedo, passar horas seguidas debaixo de sol e temperaturas elevadas, fui recompensado com uma prova em que me superei a mim próprio. Fiz 06:45:30 horas, 34º da geral em 133 sendo que só 104 chegaram ao fim, e fiz 16º lugar no escalão em 46 que chegaram ao fim.

Os Ultra trilhos Rocha da Pena, todas as provas, incluindo a caminhada têm de ser planeadas e requerem um mínimo de treino. São condições meteorológicas extremas que mesmo sem correr podem causar problemas de saúde. 
A destacar: 
Pessoas que não usavam protector solar de certeza. Atletas sem um chapéu, boné puff, o que seja na cabeça. 
Ouvi comentários do tipo, ai e tal eu treino mas é sempre com a fresquinha à noite ou de manhãzinha...vais fazer um trail que tem como principal característica ser debaixo de um sol abrasador e não treinas nessas condições???????? 
Atletas que não se hidratam correctamente, Ela e a Rita, na prova dos 25kms perderam 40 minutos a dar assistência a dois atletas com sinais de desidratação severa, alteração do estado de consciência, desorientação no tempo,espaço e pessoa, etc... a hidratação começa pelo menos uma semana antes a ser reforçada, e durante a prova sempre que possível beber,beber e refrescar. Eu devo ter bebido perto de 10 litros de água durante todo o tempo que decorreu desde que me levantei às cinco da manha até que terminei a prova.
A organização faz recomendações e obriga à utilização de um mínimo de material indispensável, e dá as condições mais que necessárias, mas sempre que alguma coisa corre mal são os primeiros a serem responsabilizados e sem culpa nenhuma. Acho que cada um deveria ter o mínimo de consciência e só se aventurar numa prova destas se estiver em condições de a terminar. Eu certamente que não me aventuro para mais nenhuma prova nas condições do Azores Trail Run enquanto não tiver preparado para enfrentar aquelas condições. Até porque uma prova mal preparada poderá dar em problemas sérios de saúde ao atleta mas também problemas aos outros participantes que prestam auxilio, sem falar nas preocupações e nas aventuras em que a organização é colocada para prestar auxilio a todos os demais atletas que se aventuram neste tipo de provas sem qualquer preparação

Para finalizar só nos resta dar os parabéns à organização, o nosso sincero agradecimento! Apesar dos imprevistos que aconteceram conseguiram chegar a todos aqueles que necessitavam do seu auxílio e têm conseguido de ano para ano surpreender-nos pela positiva numa das provas que começa a dar que falar no circuito de trail nacional e internacional! 5***!


Agora é tempo de recuperar, férias da corrida por umas semaninhas, pensar nos objectivos para a próxima época. 

Até já e boas corridas!

quinta-feira, 7 de julho de 2016

A proxima prova

Continua difícil manter o blog atualizado, mas também não tem havido nada para contar de novo. Sendo assim venho hoje falar da próxima prova.

Depois de ter falhado um dos objetivos do ano nos açores, vou agora tentar os 50kms do UTRP (Ultra Trilhos Rocha da Pena), a 7 de agosto.



No ano passado fiz os 25kms que correu mais ou menos como esperado. Por sorte não estava muito calor mas acabei os últimos kms a sofrer com câimbras. E claro acabei com vontade de repetir mas na versão mais longa.

Este ano as coisas têm-se proporcionado para que consiga treinar um pouco mais e apostar em treinos mais longos.
No entanto os objetivos para a prova não são muito ambiciosos pois tenho vindo a fazer um trabalho pós lesão, de recuperação do estado de forma em que estava. Ainda não sinto que esteja a 100%, e o tempo é escasso para conseguir alcançar uma boa forma. Por isso os objetivos para a prova é acima de tudo termina-la e, se possível, entre as 7 e as 8 horas de prova. Mas não quero por em risco o terminar a prova, por isso vai ser sempre a controlar e tentar pelo menos chegar dentro do limite das 13 horas.
Desde a prova dos açores ao utrp vão dois meses por isso são esses dois meses que disponho para treinar em especifico para o UTRP. Não é o ideal mas é o possível. 

A prova tem 50kms com muito sobe e desce e,  se os desejos da organização se concretizarem, será debaixo de um sol abrasador capaz de fritar ovos nas pedras... 


Altimetria da prova

E vendo a altimetria da prova e conhecendo a maioria do percurso até aos 25kms, o que realmente me preocupa será o espaço que vai dos 20kms até aos 42kms, é quase metade da prova num sobe e desce constante que destrói qualquer articulação mal apertada, vai ser um chocalhar de ossos que só visto. Por isso, os primeiros 20 kms têm que ser muito bem pensados e percorridos nas calmas, sem forçar, porque a prova começa ali por volta dos 20 kms quando se atravessa a estrada EN503.  

A partir de hoje vou tentar fazer publicações diárias na página do facebook sobre treinos, alimentação e recuperação até ao dia da prova. Até lá espero conseguir publicar mais um post com mais detalhes da prova.

Até já e boas corrida!

sábado, 4 de junho de 2016

Azores Trail Run



Antes da prova


Começando pelo início, algures lá para o final do ano passado tivemos conhecimento da prova. Pesquisámos e encontramos este video da segunda edição e desde logo ficámos hipnotizados. Eu e Ela fizemos então um jantar com o Filipe e a Rita e ficou decidido que iria-mos tirar férias juntos para conhecer os Açores e fazer o Faial de Costa a Costa 48km.


Os treinos começaram a ser direcionados para este objectivo e tudo correu bem até às 24 Horas Strong Run. Esta deveria ser uma prova teste, com o objetivo de terminar a fase de carga do plano de treino, depois era só afinar alguns pormenores e estava feito o treino. Mas o que realmente aconteceu é que saí lesionado desta prova. O acumular de muitos treinos e kms (foram mais de 300kms em março e 250kms nas primeiras duas semanas de abril incluido a prova), o uso e abuso de calçado inapropriado (sou pronador e pronador severo à esquerda) resultou num síndrome da banda iliotibial, mais conhecido por joelho de correrdor.
Parei vários dias e iniciei tratamento no osteopata mesmo até à ida para os Açores. Resultado, nas seis semanas que antecederam o Azores Trail Run fiz pouco mais de 15 treinos, o mais longo com apenas 12kms. E só nas ultimas 2 semanas consegui correr sem dores. Tive a ultima seção de tratamento no dia antes da partida para os Açores ou seja 4 dias antes da prova.

Objetivos


O objetivo inicial para a prova era desfrutar ao máximo das paisagens da ilha e tentar fazer um top 20 do escalão, com um tempo entre as 05:30h e as 6 horas de prova. Isto tendo em conta os tempos das edições anteriores. Para mim, participar em provas é isso mesmo, é competir com outras pessoas, nas mesmas condições. Ir a provas só para chegar ao fim não faz sentido na minha perspetiva. Por isso é que há provas com classificações e prémios por escalões. Caso contrário corria apenas com o relógio a cronometrar os meus tempos e a superar-me a mim próprio. Mas quando me lesionei mudei radicalmente os objetivos, e passeia a querer apenas chegar ao fim, conseguir fazer a prova toda sem que o joelho me deita-se abaixo. E ía preparado para tentar fazer a prova sem ultrapassar o tempo máximo de 10 horas. Comprei então uns bastões de caminhada para aliviar nas descidas e ajudar nas subidas.


A prova


As previsões meteorológicas para o dia da prova não eram assim tão más e só davam previsão de chuva para o final do dia.

Antes do início da prova, marcada para as 09:30 horas estava tudo a correr bem, uma boa temperatura, mais para o fresco mas sem fazer frio. Não estava a chover, mas o céu estava bastante nublado.

Percurso e altimetria.
O percurso de inicio era sempre a subir até meio, altura em que circundávamos a caldeira e depois predominantemente a descer até ao vulcão dos Capelinhos onde estava situada a meta. O "ex libris" da prova é a passagem pela caldeira central da ilha que é o maior e mais importante vulcão do Faial. Supostamente proporciona vistas magníficas e inesquecíveis. Mas, infelizmente para nós, o local iria estar completamente coberto por um denso nevoeiro.

Partida na hora marcada, com grande festa, muito público a assistir, muitos fotógrafos com grandes máquinas fotográficas, GoPro's, drones, tudo o que temos direito numa prova...
Logo de início fui sempre junto ao Filipe. A Rita deixo de a ver logo desde o início e a Tânia a partir do segundo km.

Aqui ainda ía tudo bem. Com a ilha do Pico em pano de fundo.

Assim que começo a subir a primeira parede utilizo os bastões de caminhada e consigo até um bom andamento a subir sem grande esforço.
A partir do km 8 começa a chover, não é muito mas vai molhando a roupa.
No primeiro abastecimento vestimos os corta-vento que sempre repelem alguma água, no entanto por pouco tempo. 
Após a zona em ziguezague, na ascensão à caldeira, começa a chover com mais intensidade, e à medida que vamos subindo cada vez mais o tempo piora muito e já faz frio.
Quando chegámos ao 2º abastecimento já começo a acusar a falta de treinos, sinto-me cansado e com as pernas pesadas. Fazemos então mais uma paragem demorada para colocar os telemóveis dentro do saco da manta térmica porque na mochila já estavam a ficar molhados.
Quando saímos do abastecimento chove bastante e faz frio e vento. Passamos nesta altura pelos atletas que vão fazer o Trail dos 10 vulcões 21kms.
Assim que subimos para a caldeira começa a fazer imenso vento e não consigo correr em linha reta, pois o vento empurranos de um lado para outro. A chuva a bater na cara parecem agulhas a picar, tal a força do vento. Em menos de 1 km na caldeira perco o Filipe de vista. Começo a ficar com imenso frio, mas guardo sempre a esperança de ser passageiro. Como estamos a 1000 mts acima do nível do mar imagino que quando começar a descer o tempo ficará melhor, e de fato, em algumas zonas o vento acalma, mas depois volta à carga ainda com mais força...O pior é que a chuva não pára e cada fez está mais frio e nevoeiro.

Esta zona da caldeira é caracterizada por ter um tipo de vegetação a que chamam "tufos" (acho que é assim que se chama) que são pequenas elevações de erva e terra mole que ao pisar tem uma consistência "fofinha", mas torna muito difícil a corrida. Temos de tentar encontrar um sítio mais duro para colocar os pés. Saltitamos de um lado para o outro tentando evitar as poças de água e as "minas" de vaca, quase do tamanho dos tufos... tarefa difícil mas não impossível pelo menos até certo ponto. Torna-se até divertido mas de muito difícil progressão.
Mas a chuva não dá tréguas e é quase impossível manter os pés secos. A água acumulada começa a formar pequenos ribeiros de lama com minas de vaca à mistura, sinto que estou literalmente a correr na merda.
A dada altura sigo atrás de uma atleta que do nada fica presa com o pé na lama. Eu, no momento achei aquilo o máximo, tipo uau que cena vou já ajudar a jovem... Mas assim que agarro na perna dela para puxar fico com a minha perna esquerda presa até ao joelho em lama. A lama faz vacúo e quase me arranca a sapatilha do pé quando faço força para tirar a perna, e ao mesmo tempo...CÃIBRA! Começo a ter cãibras cada fez que fico atolado.
A partir daqui é sempre a piorar. Onde era caminho, agora é só lama, os tufos começam a partir quando os pisamos e é fácil cair na lama. Desisto de tentar correr e apenas caminho com a ajuda dos bastões, para não cair. Quando encontro uma zona mais fácil de correr já não consigo porque estou cansado de tanto saltar, escorregar e cair na lama.
A certa altura sou alcançado por Ela. Não estava à espera que me alcança-se, no entanto era algo inevitável pois eu estava a progredir muito devagar. Diz-me que ainda mal parou nos abastecimentos e que está com fome. Pede-me que lhe dê algumas barras energéticas e géis que leva na bolsa de trás da mochila. Pergunta pelo Filipe e segue para a frente a dizer que tem de ir apanhar umas atletas que vão mais à frente... em menos de 1 minuto fico outra vez sozinho, ela vai a correr, eu a andar, e o nevoeiro não deixa ver mais que 200 metros à frente.

O Terreno é só lama e não consigo evitá-la. Facilmente fico atolado até aos joelhos. Por vezes tenho de retirar a perna com as mãos para não ficar sem sapatilhas. E pior, já não distingo a lama das "minas" de vaca...
 - Mas como é que o raio das vacas vêm parar aqui em cima? pergunto a mim próprio!

A determinada altura começam a assobiar e chamar por mim e mais uns atletas que seguiam à minha frente. Olho para trás e vejo que nos tínhamos enganado no percurso. A olhar sempre para o chão e com nevoeiro não nos apercebemos que era para virar numa encruzilhada.
Em certas zonas mais técnicas que tinham algumas subidas ou descidas por pequenos degraus de terra, agora é apenas uma cascata de lama e água, é quase impossível transpor estas partes sozinho e começam a formar-se pequenos grupos para se ajudam nestas zonas.
Começo a tomar consciência do estado em que estou e do perigo que corro. Estamos completamente isolados, não se avistam estradas de acesso ou qualquer membro da organização. Se alguém tem o azar de ficar lesionado nesta zona vai sofrer e muito.
O frio e a chuva é demasiado, gasto mais energia a tremer de frio do que a andar. Aqui e ali há atletas no chão, com cãibras e dores musculares, rodeados de outros atletas a ajudar. Já não consigo parar para ajudar, pois corro o risco de ser eu o próximo a ficar por terra.

Já sabia que ía ser uma prova dura, com grau de dificuldade elevado, mas isto estava a ultrapassar tudo o que tinha imaginado. Uma coisa é ter uma zona de prova mais técnica e difícil, outra é estar à mais de 10 kms atolado em lama, com chuva e frio. Já não tiro qualquer prazer da prova e só quero que acabe depressa. Alguns atletas já caminham enrolados na manta térmica. Quando finalmente chego ao 3º abastecimento estou esgotado, tenho 04:30h de prova e demorei 02:15h para fazer os 10 km que separavam os dois abastecimentos.
Não consigo quase comer por causa do frio, não paro de tremer. Pergunto então a um membro da organização como é o terreno e como está o tempo a partir daqui:
 - É sempre a descer agora, mas o piso está igual, com muita lama e está também a chover lá pra baixo.
Os meus joelhos não vão aguentar a descida. Dou voltas a tentar decidir o que fazer. Não consigo aquecer nada, e acabo por tomar a decisão que na altura me pareceu mais certa. Desligo o relógio com 04:37 horas de prova, e 27 kms percorridos. Abandono a prova porque sinto que já não estou em condições físicas de percorrer mais 20 kms.

Naquele espaço de tempo que estou no abastecimento pelo menos mais 10 atletas abandonaram pelas mesmas razões. No total dos 212 atletas que partiram para a distancia de 48 kms 52 não a terminaram. Nos 70 kms dos 70 atletas apenas 55 chegaram ao fim.

Enrolo-me na manta térmica e colocam-me dentro da ambulância com mais 6 atletas. Dizem-me que estão à espera que venha alguém para nos levar para baixo. Espero quase 1 hora até vir alguém. Um jipe com um rapaz e uma rapariga da organização, que apenas pode transportar 3 atletas. Consigo então um lugar no jipe e sigo com mais 2 atletas para a Horta.
Mas ao fim de 5 minutos a descer, vem alguém a correr em direcção ao jipe e diz que há um atleta preso na lama com hipotermia e que já não consegue andar, tem de ser evacuado rapidamente. Temos então de nos apertar ao máximo dentro do jipe para conseguir entrar mais uma pessoa.
Somos transportados para o hospital da Horta mas recuso-me a fazer ficha, assumo a responsabilidade e abandono o hospital. 
Corro até à casa onde estávamos alojados para tomar um banho e mudar de roupa. Pelo caminho mando sms à Rita ao Filipe e à Tânia a dizer o que se tinha passado mas que estava tudo bem. Apenas a Rita responde a dizer que também tinha abandonado no 1º abastecimento, mas que o Filipe a Tânia continuam em prova.
Tomo banho a correr e sigo de carro até à meta, na outra ponta da ilha a tempo de ver a Tânia e o Filipe chegarem juntos!


O Filipe e a Tânia de mãos dadas a transpor a meta.

Fica aqui o video que consegui fazer durante a prova.


Agora, à distância de quase uma semana é fácil pensar que poderia ter feito melhor, que podia ter tentado arriscar os últimos 20kms. Mas a verdade é que não estava preparado. A falta de treinos não me permitia ir mais longe, as dores no joelho ainda que fracas condicionaram-me psicologicamente e claro afetou a minha maneira de correr, mais resguardado, mais lento e conseguentemente mais tempo exposto à chuva e ao frio sem maneira de aquecer o corpo.
Fica a vontade de lá voltar para fazer a prova de novo e pagar os 20 kms que fiquei a dever. Por isso fica a promessa que se conseguir lá voltar será para fazer os 70kms do Ultra Ilha Azul.

Até já e boas corridas!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

I Trail transfronteiriço de Barrancos

Passadas mais de 48 horas depois de acabar o trail estou sentado no sofá com a maior dor de pernas que tive desde que há memória. Preciso pedir por favor aos músculos para fazer o mais pequeno movimento e só de pensar em subir ou descer escadas doí... e só foram 17 kms.



Desta vez fomos na versão "Low cost" e ficámos a dormir no Pavilhão de Barrancos, resultado? Uma noite praticamente em branco, muito frio, chão mesmo muito duro e barulho até muito tarde e logo bem cedo. Contudo, foi rir do principio ao fim, o ambiente era de galhofa total e nós os dois no nosso cantinho rimos e brincámos com a situação.

Dia 30 alvorada dada bem cedo e quando saímos do pavilhão para ir tomar o pequeno almoço ao centro da Vila tivemos o primeiro contato com o frio da manhã, pelo menos não iria chover isso era certo, mas ía estar muito frio e tivemos de fazer algumas alterações na indumentária que tínhamos preparada para a prova.
O ambiente na Vila era de festa, muita gente na rua, muito convívio entre os atletas presentes e acima de tudo muito boa disposição e vontade de trilhar pelas terras alentejanas e espanholas.

Nós os dois ali à conversa, ainda a uns 15 minutos do tiro de partida. Foto de CCD o Alvitejo.
Aqui é já na altura do tiro de partida. Nós os dois estamos encostados ao pórtico da partida do lado esquerdo da foto. Foto de CCD o Alvitejo.
Eu ali em segundo lugar nos primeiros metros da prova. Foto de CCD o Alvitejo.
Ela, ao lado da atleta que acabaria por ser a vencedora feminina do trail. Foto de CCD o Alvitejo.
O primeiro km foi feito a muito bom ritmo apesar de ter algumas boas subidas ainda dentro da Vila. Assim que saímos da Vila e entrámos na trilha, meu Deus... só pensei: eu tenho que me sentar já aqui e descansar... ia com 1,5 km nas pernas SÓ. Era uma parede de pedras soltas a pique, literalmente, onde tinha que me agarrar a tudo à minha volta para conseguir subir. Nesta altura ia na terceira ou quarta posição, quando cheguei ao topo desta primeira MONTANHA DE ROCHA já tinha perdido 3 posições. 
Quando finalmente consegui tirar as mãos do chão e começar a arrastar-me correr comecei a ser ultrapassado por toda a gente. E... Foi assim que tive um pouco de glória, no primeiro km fui terceiro, depois morri, reduzi-me à minha insignificância e tive mais juízo. 
Depois da má experiência logo no segundo Km optei por atacar nos troços planos, e o resultado foi que, não ataquei, não havia troços planos... até ao primeiro abastecimento andava e gatinhava com as mãos nos joelhos nas subidas e pedia a todos os santinhos para me ajudarem nas descidas, pelo menos para me ampararem a queda.
Quando chego ao primeiro abastecimento vinha tão ofegante e tão cansado que só consegui beber meio copo de água, engasguei-me de tal maneira que acabei por ir embora cabisbaixo e ainda mais cansado. Depois do primeiro abastecimento vinha o maior troço de sentido descendente e acabei por conseguir ganhar fôlego e algum ânimo. Aproveitei a boa maré e peguei no iphone para registar o momento, ali algures entre Portugal e Espanha...

Lá em cima o primeiro abastecimento e depois por ali abaixo até aqui...

...e depois por ali, até onde a vista alcança...
No segundo abastecimento parei e comi de tudo o que havia na mesa, desde bananas a bolachas, frutos secos, marmelada e batatas fritas. Bebi 2 copos de coca-cola e um de groselha, quanto à água perdi a conta. Depois foi só rolar para os últimos kms com a sensação de dever cumprido, sabia que a partir dali ia conseguir acabar.

A chegar ao segundo abastecimento... bem visível o empeno que trazia!
Ali atrás vinha Ela  também a chegar ao segundo abastecimento.
A cortar a meta e a conferir o tempo final.  
No final deu 01:49:17 nos 17,3kms, fiquei classificado em 18º da geral e 11º do escalão.
Depois de comer qualquer coisa e beber uma água voltei para trás ao encontro dela. Mas não foi preciso andar muito, encontrei-a já na subida final a escassos metros da meta.

Ela lá em baixo na subida para a meta...
Aqui já a cortar a meta.
O tempo final dela foi 01:55:41, foi  2ª da geral feminina e 1ª do escalão. Eram 20 atletas femininas e 80 masculinos. Os prémios eram só para os três primeiros da geral feminina e masculina.

O pódio feminino.
E foi assim que se passou mais um excelente fim de semana a fazer-mos aquilo que mais gostamos. Uma prova muito dura para acabarmos as férias em grande e com um valente empeno para o resto da semana...

Até já e boas corridas!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

PROVAS - Confirmações

A semana que passou foi muito animada cá por casa! Foram imprevistos atrás de imprevistos e uma semana de treinos por água abaixo.

Depois de há semanas atrás conferenciarmos sobre o que seriam os nossos objectivos até ao final do ano restava-nos esperar que tudo corresse pelo melhor e que conseguíssemos disponibilidades para as provas  que se avizinham e, claro, estar em condições físicas aceitáveis para tal.
A primeira já estava, a 1ª Mini Maratona UNICEF, e as restantes???

Na quarta-feira passada chego ao trabalho e... KO! Tinha saído o meu novo horário e estava a trabalhar, no fim de semana da Corrida do Tejo, no fim de semana do Trail Terras do Grande Lago e ainda no fim de semana da 1/2 Maratona Ponte Vasco da Gama. Imaginam como fiquei... Pois, nem vos digo, uma sensação de frustração e desânimo que me deixou KO!
Com tão poucas oportunidades que temos cá no Algarve acabamos por seleccionar a dedo as provas que queremos ir e fazemos o impossível para conseguir. Gastamos tempo, e muito dinheiro, mas é aquilo que nos dá prazer. Por isso, tamanha frustração.
Mas, há sempre o tal "mas" , com algumas trocas, uns pedidos aqui outros ali lá consegui os dias para ir à Corrida do Tejo. Fizemos logo a inscrição, por isso esta está confirmada e vamos ter um fim de semana prolongado em Lisboa, mais ou menos de 12 a 15 de Setembro.

Mais um esforço e tenho também o fim de semana para ir ao Trail das Terras do Grande Lago e assim fazemos a nossa estreia numa prova do género. Também já temos inscrição feita, tudo pago e confirmado.
No fim de semana da 1/2 Maratona já não consegui fazer nada e vou estar mesmo a trabalhar. Não se pode ter tudo e conseguir estes dois fins de semana livres vai-me sair do corpinho porque vou ter de trabalhar mais noutros dias,contudo, é por uma BOA causa.

Mas a semana não ficou por aqui NÃO, houve mais.
Há algum tempo que o Trail das Terras do Grande Lago estavam no topo das nossas prioridades de corrida, por um lado porque tínhamos ouvido falar muito bem da prova, por outro queríamos fazer uma prova do género e ainda porque esta até era das mais próximas que tínhamos. Então perfeita! Contudo, há meses atrás alguém nos disse que estavam a pensar fazer uma prova de Trail aqui em Faro e que seria dia 22 de Setembro. Ficámos logo de pé atrás e pensámos, é em Faro temos de ir, não vamos a Portel, é na nossa cidade temos de estar presentes e participar. Mas não encontramos nada na net, ninguém sabia de nada, o site que nós indicaram não tinha nada e o tempo foi passando e pensámos que não iria haver nada. Não é que faço mil e uma trocas para ter o fim de semana, fazemos as inscrições e programamos tudo para ir a Portel e no dia seguinte aparece no facebook a tal prova de Trail?? É verdade, vai mesmo haver uma prova de Trail em Faro dia 22 de Setembro nas distâncias de 45Km e 20km. E nós não vamos estar presentes. Nada me daria mais prazer do que participar numa prova de trail na minha própria cidade, mas parece que nada estava a favor e por isso vamos para Portel nesse fim de semana. Ficamos a torcer por quem fica a correr em Faro. Esperamos que seja uma prova bem sucedida e com futuro, bem precisamos de mais actividades aqui no nosso deserto.



Mais informações sobre a prova aqui.

Entretanto temos conhecimento de mais uma prova aqui em Faro (é a loucura). Nem pensamos duas vezes, já estamos inscritos mesmo sem saber se vamos estar a trabalhar ou não.
É a Corrida Faro Ativo de 10km e caminhada 5km e está integrada no Circuito Nacional de Estrada, com o apoio da Xistarca e da Câmara Municipal de Faro.


Mais informações sobre a prova aqui.

E como estávamos numa maré de nos inscrevermos em provas, não perdemos mais temos e já garantimos o nosso lugar na Maratona de Sevilha que se realizará a 23 de Fevereiro de 2014. Estamos a mais de seis meses de distância, mas era agora ou nunca, depois aparecem os "se´s" e os "mas" e acabamos por não ir, assim já está e agora pra frente é que é caminho.
Vão ser seis meses de preparação a todos os níveis e se for preciso tiramos férias para não haver surpresas na altura...



Mais informações sobre a prova aqui.

E foi assim que passamos a semana, não corremos de uma maneira corremos de outra, é preciso é ir correndo qualquer coisinha!

Até já e boas corridas!