Esta semana o escolhido foi um livro de viagens, pelo menos é nessa secção da livraria que ele se encontra à venda.
Só pra abrir o apetite um pouco sobre o seu autor.
Jamel Balhi nasceu em Lyon em 1963 e cedo se lançou no mundo da corrida alcançando marcas de 2h20 na maratona. Contudo, foi nas grandes viagens que mais se destacou. Foi o primeiro homem a dar a volta ao mundo a correr sem qualquer tipo de assistência, entrando para o guinness book. Fez as corridas mais longas de que há historia. Como embaixador da UNESCO e fotojornalista, Jamel dá-nos a conhecer o outro lado dos países por onde passa, a vida tal e qual ela é...
Neste livro, que penso ser o único publicado em Portugal, Jamel Balhi corre 24000 Km de Anchorage no Alasca até Ushuaia na terra do fogo na Argentina. Iniciou esta aventura em Abril de 2000 e terminou no final de 2001. O Livro é posteriormente publicado em 2003 e sai em Portugal no final de 2004.
Confesso que no início antes de começar a ler e até mesmo durante as primeiras páginas, senti uma certa desconfiança sobre a veracidade dos factos, como é possível alguém correr tal distância.... Mas à medida que me vou deixando levar pela leitura descubro outro mundo, outra maneira de ver e viver a vida.
Jamel Balhi fez uma travessia de 24000 Km em ano e meio, uma média de uma maratona por dia. ESPERA AI, uma Maratona por dia???? durante ano e meio??? mas existe um senhor que fez 50 em 50 dias e é um herói por todo o lado, como é possível que ninguém conheça este Jamel Balhi, que uma simples busca no google tenha meia dúzia de resultados dignos de se ver, e que a página do senhor no facebook só tenha pouco mais de 250 likes???? RESPOSTA: $$$$ dinheiro, muito dinheiro... Enfim não é que um seja melhor que o outro, simplesmente são mundos diferentes. Jamel faz esta viagem da maneira mais humilde que é possível, a pé, a correr, e sem qualquer pretensão de fama ou gloria.
Bem, tirando este pequeno à parte, como ia a dizer, este senhor fez esta travessia pelos países mais perigosos do mundo sem qualquer tipo de assistência, apenas a sua força de vontade e as suas pernas como meio de transporte. Jamel em determinada parte diz que não é um turista, mas sim um viajante, e a verdade é que em momento algum durante a viagem é confundido com um turista.
"Não aprecio nada o espírito gregário destes guias, (guias de viagem) sobretudo porque ele é movido por fins comerciais. Estes manuais balizam e banalizam a estrada; condicionam a actividade de milhões de viajantes no mundo inteiro, que são todos indistintamente classificados como turistas, pois não há turismo sem uma lógica de consumo...Turismo = transporte + visita + restaurante + alojamento... as minhas pernas são o meu guidebook:"
Desde o país mais rico do mundo aos mais pobres a atitude e a maneira de encarar as coisas é sempre a mesma, apesar dos contrastes a visão do autor é sempre contagiante.
Pouco depois de atravessar a fronteira dos EUA com o México:
"Vejo muitas cores, mas aqui as cores rimam com odores. Policias a bordo de Volkswagens carocha brancos, com sirene e farol giratório. As mijadelas na margem da estrada já não são passíveis de infracção. Os autocarros são arredondados à frente e atrás, como supositórios. Nas bancas de frutos e legumes encontro, com satisfação, tomates irregulares e deformados, cheios de sumo e todos diferentes, contrariamente àqueles dos supermercados do norte, sem sabor e todos idênticos, pois foram calibrados segundo normas comerciais."
Durante a viagem Jamel passa pelas mais adversas condições meteorológicas, desde temperaturas abaixo de 0º C com ventos glaciares, até desertos secos com temperaturas a rondar os 50º C em que consome mais de 12 litros de água por dia e a bebida energética mais consumida no mundo inteiro, a Coca-cola...
A uma média de 12km/h com tiradas de mais ou menos 60/70 kms por dia Jamel Balhi gastou, "treze pares de sapatinhas e vinte e sete sapateiros para uma corrida de 24 127 quilómetros."
Para mim este livro é uma aventura a correr, um livro para ler e reler, que nós dá algumas luzes sobre o outro lado do mundo e nos mostra como a correr se pode conhecer esse mundo.
" Existem milhares de modos de viajar e eu escolho o modo mais livre que existe, desprezando a organização. Escolhi voluntariamente ser não organizado. Nada do que vivo diariamente foi previamente organizado, se bem que cada metro percorrido seja uma descoberta. Eu agarro na vida, esfrego-a, torço-a e mergulho-a, por vezes nas misturas mais corrosivas, depois enxugo-a, retorço-a, passo-a por água limpa estendo-a ao sol para a secar. Para a voltar a sujar logo de seguida. A vida mostra-me todas as suas cores, e aprendo com ela tudo o que os homens devem saber sobre a sua existência: o conhecimento, o respeito e a tolerância. À força das provações da resistência, a vida faz de todos os que a desafiam seres endurecidos, sempre prontos a lançar-se de novo nas garras da existência. A vida deu um sentido à minha vida. A vida é formidável, quando sabemos servir-nos dela, usá-la bocadinho por bocadinho, e por de lado velhas feridas. Ela é ainda mais bela quando a vivemos nós mesmos. Mas atenção, a vida só se pode utilizar uma única vez!"
Fica-se com vontade de fazer uma pequena viagem ao estilo de Jamel Balhi, mas falta a coragem para enfrentar todas as adversidades que tal aventura acarreta.
Só por curiosidade, Jamel Balhi tem mais 5 livros editados mas nenhum em português, só em francês, por isso nem me aventuro a tentar ler...
Até já, boas corridas!

